Networking e referências em Moçambique: o 'cunho' com honestidade

Networking e referências em Moçambique: o 'cunho' com honestidade

A fina linha do mercado moçambicano

Quem está no mercado de trabalho em Moçambique conhece a expressão perfeitamente: o "cunho". A crença popular diz que só se consegue emprego em Maputo se tiver "costas quentes", se for familiar de um diretor ou se pagar a quem toma as decisões.

Há uma distinção vital entre duas realidades muito diferentes: o crime e o networking legítimo (a rede de contactos). Saber jogar pelas regras legítimas do networking é o fator que mais emprega pessoas no país, mas exige integridade e método.

1. O crime: Emprego não se compra

Vamos ser claros e taxativos:

Se alguém lhe pede um "refresco", 10.000 meticais, ou qualquer tipo de favorecimento pessoal para lhe garantir uma vaga na função pública, num banco ou no porto, isso é corrupção e burla.

Em Moçambique, milhares de jovens são defraudados anualmente com falsas promessas de integração nos exércitos de segurança, nos hospitais e nos ministérios. Ao pagar por uma vaga, não só comete um crime punível por lei, como na maioria das vezes perde o dinheiro e não fica com emprego nenhum, porque o burlão desaparece mal recebe no M-Pesa. As grandes empresas corporativas possuem sistemas de auditoria rigorosos para travar precisamente estas contratações falsas.

2. A estratégia legítima: O Networking

O que é, afinal, o networking legítimo? É a arte de garantir que as pessoas do seu círculo (professores, antigos colegas, membros da comunidade, chefes anteriores) sabem exatamente o seu valor, que está à procura de emprego e do que é capaz de fazer.

As empresas em Moçambique preferem contratar por referência interna. Porquê? Porque reduz o risco. É muito mais seguro para um diretor de recursos humanos contratar um contabilista que vem recomendado pelo atual diretor financeiro (que atesta a sua honestidade) do que contratar um estranho de um monte de três mil currículos.

Como ativar a sua rede de contactos:

  • Não peça "um emprego qualquer". Quem diz aos amigos "epá, vê lá um biscate qualquer para mim na tua empresa" demonstra desespero e falta de foco. Diga: "Estou à procura de uma oportunidade na área de logística de armazém, caso saibas de alguma vaga a abrir."
  • Tenha o material pronto para o WhatsApp. Quando a sua tia na Matola, que trabalha no RH, disser "Manda o teu documento que o chefe perguntou hoje se eu conhecia alguém", você não pode responder "vou preparar e mando amanhã". O seu CV em PDF tem de estar no seu telemóvel pronto a encaminhar no mesmo segundo. Use o Monta meu currículo? para garantir esta disponibilidade.
  • Cuide da sua reputação na universidade e no bairro. O seu professor de faculdade hoje pode ser o consultor que avalia candidatos amanhã. A pessoa com quem joga futebol ao sábado pode ser um gestor que precisa de um vendedor à segunda-feira. A sua postura no dia a dia é o seu maior currículo.

3. As Referências Profissionais no Currículo

Ao contrário de outros mercados, no currículo moçambicano as referências são ativamente ligadas e escrutinadas.

  • Quem colocar: O seu chefe direto no emprego anterior, o seu orientador de tese ou um antigo cliente. Nunca coloque familiares (mães, primos) ou amigos como referências profissionais; o recrutador percebe imediatamente e descarta o seu processo.
  • Avise as pessoas: Nunca coloque o nome e o telemóvel do Eng.º João no seu currículo sem lhe telefonar primeiro a pedir autorização. Não há nada pior para a sua imagem do que o recrutador ligar à sua referência e ele dizer "Quem? Ah, o rapaz... sim, não sabia que ele me tinha posto aí".
  • Não esconda a informação: Como indicado no nosso guia do currículo em Moçambique, colocar nomes e cargos fiáveis no fim do documento acrescenta um peso de ouro à sua candidatura.

O boca-a-boca estruturado

O "cunho" honesto nada mais é do que uma reputação forte e disseminada. Seja bom a trabalhar, mesmo no informal; ajude os outros, cumpra prazos. Em Maputo e noutras capitais provinciais, o meio profissional é pequeno e toda a gente acaba por se cruzar. A sua competência será a sua recomendação.

Perguntas frequentes

Alguém me garantiu uma vaga no Estado se eu lhe transferir 5.000 meticais. É de confiar?

Não. É 100% garantido que se trata de uma burla. Os concursos de ingresso no Aparelho do Estado moçambicano são gratuitos, públicos, publicados no Jornal Notícias e sujeitos a exames escritos documentados.

Quantas referências profissionais devo colocar no meu currículo?

O padrão ideal em Moçambique são duas a três referências. Mais do que isso é exagero e menos do que isso pode transmitir a ideia de que saiu em conflito dos seus empregos anteriores.

Devo colocar as minhas referências se for o meu primeiro emprego?

Neste caso, pode utilizar referências académicas. Um professor da universidade com quem teve boa relação ou o diretor do instituto médio que possa atestar a sua pontualidade, empenho e capacidade de aprendizagem.

O recrutador moçambicano liga mesmo para as referências?

Sim. Sobretudo para posições que envolvem o manuseamento de valores (caixas, comerciais, gestores), as referências são ligadas imediatamente na fase final da triagem para confirmar que não existem antecedentes de desvio de fundos ou má conduta.

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